A Popularização da Música

A revolução sonora do Século XX

A popularização da música, até o Século XIX, se limitava, geograficamente, aos rincões onde ela era criada. Somente a música erudita recebia certa divulgação entre as elites, através de concertos de músicos como Mozart, Beethoven ou Strauss em cidades européias mais importantes.

Alguns instrumentos musicais em voga também eram produtos de luxo: a harpa, o violino e o piano eram privilégio das elites. Já o violão, um instrumento mais acessível, era visto com preconceito.

Tudo isso iria mudar, porque o Século XX traria a revolução dos meios de comunicação. Sem dúvidas, a conjunção dos inventos e eventos do Século XX o caracterizaram como o Século da popularização da música – que chegou a todos – deixando de ser um privilégio das classes mais abastadas, para se tornar uma paixão universal.

Cronologia dos Inventos que aceleraram a Popularização da Música:

  • 1876 – Telefone de Alexander Graham Bell
  • 1877 – Fonógrafo de Thomas Edison (usava cilindro de cera)
  • 1887 – Gramofone de Emil Berliner (usava discos de goma laca)
  • 1895 – Cinema de August e Louis Lumière
  • 1896 – Telégrafo sem fio de Guglielmo Marconi (usava ondas de rádio)
  • 1905 – Telefone com Operadora
  • 1912 – Discos de goma laca com 78 rpm se tornam padrão
  • 1920 – Rádio – primeira transmissão de Rádio comercial
  • 1927 – Cinema – 1º filme com som – The Jazz Singer, com AL JOLSON, um musical
  • 1936 – Televisão (em preto e branco)
  • 1945 – 1º Computador Programável –  ENIAC
  • 1945 – Discos de Vinil ou Poliestireno
  • 1947 – Gravador de Rolo
  • 1954 – Rádio portátil pessoal
  • 1955 – Toca discos portátil
  • 1956 – 1º videotape profissional
  • 1958 – 1º Satélite Artificial – SPUTINIK
  • 1962 – 1º Satélite de Comunicação – TELSTAR
  • 1966 – Gravador Cassete
  • 1970 – Sintetizador MOOG
  • 1972 – TV a cores 
  • 1972 – Primeiras Transmissões de TV ao Vivo via Satélite
  • 1975 – Computador pessoal IBM 5100
  • 1976 – Videotape doméstico VHS
  • 1979 – Walkman SONY
  • 1981 – CD
  • 1982 – Midi
  • 1983 – primeiros telefones celulares “portáteis” (enormes)
  • 1996 – Internet
  • 1996 – DVD
  • 1997 – MP3 player
  • 1999 – 1º Celular com MP3 player integrado – SAMSUNG-M2500

O dilema dos Compositores e Músicos

Para compositores, a distribuição e propagação de seu trabalho dependia das partituras – que, por sua vez, precisavam ser impressas para multiplicar a divulgação. Assim surgiram as Editoras Musicais – que adquiriam, dos compositores, os direitos de distribuição de suas peças musicais, em troca do investimento na impressão das partituras vendidas ao público.

Naturalmente, o comércio de partituras dependia de instrumentistas que tocassem as músicas para identificação e escolha do público comprador, o que abria um mercado de trabalho extra para músicos. Eventualmente, lojas de instrumentos musicais também vendiam partituras e empregavam músicos que demonstrassem os produtos à venda.

Com a redução dos custos dos instrumentos musicais e a ascensão social da burguesia, era sinal de status contar com um instrumento musical em casa – o que impulsionou ainda mais o sucesso das Editoras Musicais. Em Nova York havia uma rua que concentrava o comércio de partituras nos seus quarteirões, tornando-se conhecida pelo nome de TIN PAN ALLEY. TIN PAN seria uma onomatopéia representando o som dos pianos tocando incessantemente nas salas de demonstração e soando como batidas em “panelas de estanho”(TIN PANS). Muitos compositores de sucesso – como IRVING BERLIN – começaram suas carreiras por ali.

Os compositores e intérpretes de música popular também podiam divulgar suas obras tentando participar de eventos públicos com maior audiência. Foi assim que o compositor e pianista afro-descendente americano SCOTT JOPLIN conseguiu popularizar sua música no final do Século XIX, apresentando-se num café nos arredores da Feira Mundial de Chicago, em 1893. A partir dali, o estilo musical conhecido como RAGTIME se expandiu pelo país e pelo mundo, dominando o cenário até os anos 1920.

Tin Pan Alley

O Teatro de Variedades (Vaudeville) também se tornou um entretenimento muito popular entre 1880 e 1930, permitindo a popularização da música, com a ascensão de cantores, instrumentistas e compositores – até então desconhecidos – à alguma fama.

Primeiros Equipamentos de Gravação

Com o surgimento dos primeiros equipamentos de gravação – como o fonógrafo de Thomas Edison, lançado em 1877 e o Gramofone de Emil Berliner, lançado 10 anos mais tarde – esse cenário iria mudar gradualmente.

Fonógrafo de Edison
Gramofone de Berliner

No início, as gravadoras precisavam convencer artistas e público sobre a funcionalidade de seus produtos. A solução foi buscar artistas promissores para impulsionar a popularização do material gravado e dos aparelhos que os reproduziam. Em 1902, a empresa Victor Talking Machine Company fez um acordo comercial com o tenor italiano ENRICO CARUSO, tornando-o mundialmente conhecido durante aquela década, ao comercializar suas gravações por todo o mundo – ao mesmo tempo que conseguia se firmar  como empresa num mercado recém criado. Afinal, para poder escutar a gravação, era necessário adquirir o aparelho reprodutor.

Enrico Caruso

Durante a década de 1950, as evoluções tecnológicas produziram novos materiais para confecção dos discos, que passaram da goma-laca para o vinil, mais maleável e resistente. Surgiram toca discos portáteis, popularizando a música também para as gerações mais jovens.

As fitas magnéticas graváveis, criadas na Alemanha, em 1928, foram mantidas em segredo durante toda a Segunda Guerra. Mas, a partir de 1947, gravadores de rolo – REEL-TO-REEL – passaram a ser produzidos no mundo todo.

Em 1958, a RCA lançou um cartucho com fita emendada – ENDLESS LOOP CARTRIDGE – um modelo já utilizado pelas Rádios – agora para uso doméstico. A nova mídia foi logo adaptada para uso em automóveis, trazendo trilha sonora para a juventude da era do Rock’n’Roll e do Drive In. Nessa época, outra marca registrada era a JUKEBOX – um vistoso aparelho reprodutor de discos, que permitia que o público selecionasse as músicas de sua preferência.

Em 1966, surgiram as fitas e os gravadores cassete – permitindo a criação de Playlists pessoais, que podiam ser ouvidas também no carro, já que a fita cassete substituiu rapidamente os antigos cartuchos. Daí surgiu o programa de assistir “corridas de submarinos” – o namoro dentro dos carros estacionados de frente para o mar – para jovens enamorados dos anos 1970.

A SONY elevou a experiência de contar com uma trilha sonora pessoal ao máximo, ao lançar seu WALKMAN em 1976 – um grande sucesso de vendas.

O advento dos CDs, a partir de 1981, ameaçou de morte os discos de vinil, mas só temporariamente. 

Finalmente, a grande novidade digital que surgiu em 1998 foi o MP3 player, um dispositivo portátil que permitia armazenar 32 MB de música para uso pessoal.

cenário típico dos anos 1950: Jukebox instalada numa lanchonete

Cinema

A primeira projeção de um filme, realizada pelos irmãos Auguste e Louis Lumière, ocorreu em 1895. O surgimento dos cinemas – reproduzindo filmes ainda sem som – abriu outro mercado de trabalho para músicos que se dispusessem a criar, ao vivo, uma trilha sonora para as cenas que se desenrolavam nas telas. O sucesso do “cinema mudo” era previsível numa época em que ocorreram ondas de imigração em todo o mundo. Mesmo estrangeiros conseguiam compreender o que se passava na tela. O mundo estava envolto na Primeira Guerra Mundial, seguida pelo drama da Gripe Espanhola. O cinema era uma válvula de escape para as agruras do dia a dia.

O primeiro filme com som, lançado em 1927, foi THE JAZZ SINGER, com AL JOLSON, um filme musical. A partir daí, o Cinema também se tornou uma importante fonte de renda e de divulgação para compositores, arranjadores, letristas e instrumentistas.

Cinema Mudo empregava músicos

E o que o Telégrafo tem com isso?

Pois é, ao buscar uma solução para o Telégrafo Sem Fio, Guglielmo Marconi acabou descobrindo as ondas de Rádio, posteriormente utilizadas para comunicação entre pessoas ou empresas, até serem adotadas para transmissões públicas a partir de 1920.

Marconi e as ondas de Rádio

O período áureo do Rádio se iniciou na década de 1930, com a popularização maciça de músicos e cantores que se transformavam em verdadeiros mitos para a audiência. 

Durante a década de 1950, toda casa contava com um aparelho de Rádio no meio da sala. E o desenvolvimento dos transistores permitiu a criação de rádios portáteis, alimentados por pilhas, como o REGENCY TR-1 – uma febre entre os jovens da época, que já almejavam uma experiência individual.

Rádio Capela

A Televisão concorre com o Rádio, trazendo imagem, além do som

As transmissões de TV se iniciaram em 1936, porém exigiram um tempo para se firmarem perante o público. Na década de 1950, a TV – ainda com imagens em preto e branco – já competia com o Rádio, sem ainda, no entanto, ameaçar sua preponderância.

As cores foram introduzidas em rede nacional 10 anos após o lançamento do primeiro satélite artificial de Comunicação – o TELSTAR – em 1962. Naquele mesmo ano de 1972, a TV passou a transmitir imagens ao vivo, via satélite. A portabilidade dos mais recentes equipamentos de videotapes, associada à possibilidade de transmissões ao vivo, atingiu o Rádio naquilo em que ele se mantinha mais eficaz: no jornalismo e nas transmissões ao vivo. 

Mesmo assim, o Rádio ainda continua sendo apreciado por muitas pessoas, talvez por nostalgia de tempos passados.

primórdios da TV: tela minúscula e imagens em preto e branco

Os Computadores e a Internet entram em cena

Desde a Revolução Industrial que a idéia de um dispositivo mecânico capaz de realizar cálculos já vinha sendo explorada. Naquele período, chegou-se a contar com a experiência bem sucedida de dispositivos mecânicos capazes de automatizar tarefas demoradas como padronagem de teares. A evolução da idéia inicial foi gradual, mas permanente. Durante a Segunda Guerra Mundial, já existiam máquinas de calcular eletrônicas digitais.

Em 1943, com a finalidade de tentar decodificar mensagens trocadas por militares alemães, durante a Segunda Guerra, foi criado o COLOSSUS – primeiro dispositivo eletrônico programável de computação digital. Em 1945, o projeto evoluiu para o ENIAC, mais potente e flexível. Mas ambos eram mecanismos gigantescos.

Foram necessários mais 30 anos de estudos até que a idéia de um computador pessoal fosse comercialmente bem sucedida com o lançamento do IBM 5100, em 1975. Num breve intervalo, o PC passou a ser um eletrônico obrigatório em quase todos os lares.

A origem da Internet remonta a pesquisas visando a livre troca de dados entre os usuários de computadores, através de uma rede sem governança centralizada para acesso e utilização. A partir de 1995, a Internet estava totalmente estabelecida nos Estados Unidos.

As mídias sociais surgiram em meados da década de 1990, com a invenção de plataformas como GeoCities (desativado em 2009), classmates.com e SixDegrees.com.

ENIAC - 1945

Telefone

Curiosamente, na sequência cronológica de inventos que aceleraram a popularização da música, o TELEFONE foi o primeiro e o último da lista. Embora ele tenha sido um dos inventos marcantes do Século XX, sem relação direta com a popularização da música, em 1999 foi lançado o Samsung SPH-M2500 – o primeiro celular com MP3 player integrado e com capacidade de armazenar apenas 10 músicas.

Hoje, qualquer um com um celular pode ouvir sua música favorita a qualquer momento.

no início, havia operadoras humanas
modelo mais conhecido

Situação Atual

Durante todo o século XX, coube às editoras musicais e às gravadoras, o controle da divulgação, distribuição e venda das obras de compositores e intérpretes. Mas hoje em dia tudo mudou.

A produção musical – antes restrita a estúdios e caros equipamentos – hoje pode ser realizada por qualquer pessoa que saiba utilizar a tecnologia digital

O streaming digital democratizou o acesso à música, permitindo que artistas independentes atinjam um público global, trazendo à baila a importante questão sobre a justa remuneração dos criadores.

Plataformas digitais abrem a possibilidade de experiências mais imersivas, como shows virtuais, aproximando os artistas de seu público.

A tecnologia generativa da IA amplia as possibilidades de experimentação na criação musical, com a obtenção de sons, efeitos e ritmos inovadores.

telefone com música

A Trilha Sonora do Século XX

O século XX foi um laboratório sonoro sem precedentes. Cada década trouxe novos ritmos, novas tecnologias e novas formas de consumir música — do gramofone ao streaming, do salão de baile às plataformas digitais. Mais do que sons, a música se tornou um reflexo vivo das mudanças sociais, políticas e culturais do mundo.

Pela importância que o Século XX teve na popularização da música, devemos ser gratos a todos que, com talento e tecnologia, criaram a trilha sonora do período, repleta de sucessos inesquecíveis. Foram muitos os estilos musicais desenvolvidos a cada década, criando a música de fundo da História.

A seguir, uma linha do tempo sonora com músicas que marcaram época e representam a evolução da música popular ao longo do século XX. Clique e viaje por cada momento dessa revolução.

Repare que, no início, as músicas eram divulgadas associadas com o nome do Compositor. Mas, com o advento do Rádio, elas passaram a ser associadas aos nomes de seus intérpretes.

💡 Dica: Ao ouvir essa playlist histórica, repare como cada década não apenas cria um novo som, mas também carrega a marca de seu tempo. É como folhear um álbum de memórias… só que em forma de música.

1900 a 1920 - Ragtime

1920 a 1930 - Charleston

1930 a 1945 - Radio: Swing (Big Bands)

1945 a 1960 - Crooners, Country, Doo Wop & Rock'n'Roll

1960 a 1970 - Twist, Motown, Folk, British Invasion & Soul

1970 a 1980 - Soul, Funk, Disco, Rock & Punk

1980 a 1990 - Rock, Funk, Pop & Hip-Hop

1990 a 2000 - Pop, Hip-Hop, Grunge & R&B

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