Adestramento Canino

Adestramento canino:  que você deve saber para se tornar um adestrador de cães bem sucedido, construindo uma relação mútua de confiança e respeito.

Pequeno Histórico

O adestramento canino surgiu pela necessidade da utilização de cães de serviço eficientes. Seus métodos evoluíram com o tempo, e hoje o foco está em construir uma relação de confiança e respeito com o animal.

Podemos supor que o adestramento canino tenha se iniciado quando o primeiro lobo cinza foi domesticado na China há cerca de 13.000 anos atrás. No início, a domesticação visava apenas o utilitarismo e os animais eram criados, selecionados, cruzados  e adaptados às necessidades de seus donos, de acordo com suas habilidades específicas de olfato, rastreio, força, resistência, caça ou pastoreio – o que deu origem aos grupos caninos compostos por raças semelhantes, com base nas habilidades específicas que definiam a função principal do animal.

Nos ambientes rurais, os animais domésticos costumavam circular livremente pelas propriedades, executando tarefas naturais para eles, como proteger a casa e a família ou espantar animais indesejados. Posteriormente, criadores de ovelhas e bovinos passaram a utilizar seus cães para pastorear os animais, enquanto pobres e nobres utilizavam cães de caça para acompanhá-los em caçadas. Ao longo do tempo, os cães foram conquistando os corações de seus donos, se tornando, também, uma ótima companhia.

Com o advento das Guerras Mundiais ( 1914-1918 e 1939-1945), os militares – inicialmente na Alemanha – passaram a treinar cães como auxiliares nos campos de batalha, chegando ao absurdo de utilizá-los como cães bomba. Ao final da guerra, esses Adestradores de cães recém surgidos passaram a oferecer seus préstimos a famílias civis, cujos animais de estimação passaram por adestramento baseado em técnicas excessivamente punitivas.

 Já na década de 1960, o adestramento canino passou a rejeitar a metodologia anterior, buscando-se reforçar o bom comportamento ao invés de punir comportamentos indesejados. Com a fundamentação científica de que os animais em geral são sencientes – ou seja, têm sensações e sentimentos de forma consciente – o adestramento canino passou a ser mais ético e começou a explorar a capacidade dos animais de perceber e responder a estímulos físicos e/ou emocionais.

No final da década de 1970, surge, na Inglaterra, um novo esporte, inspirado nas provas de hipismo, substituindo-se os cavalos por cães. O Agility logo se populariza, tornando-se um esporte canino competitivo. Em consequência, o adestramento canino passa por uma evolução empírica, com cada competidor escolhendo sua maneira de treinar o cão.

A partir da década de 1980, surge o adestramento positivo, introduzindo a utilização de recompensas, e praticamente abolindo o uso de punições. A nova metodologia baseada em reforços passa a ser empregada também em outras espécie de animais nos zoológicos de todo o mundo, visando facilitar o manejo por tratadores e veterinários.

Paralelamente, surgem estudos sobre as vantagens da sociabilização dos filhotes, antecipando o adestramento canino para o início da vida.

No início do Século XXI, a TV populariza Cesar Millan, o “encantador de cães”. Difundindo a teoria de que o adestramento canino deveria submeter os cães à figura dominante do tutor, para que o relacionamento entre os dois fosse harmônico.

Atualmente, a idéia de que o tutor deve ser o líder da matilha perdeu popularidade, por não contar com respaldo técnico-científico. Mesmo que essa técnica obtenha resultados – forçando o cão à submissão e ensinando tutores por demais permissivos a por ordem na casa – também carrega o risco de provocar o efeito oposto, tornando o cão agressivo com seu tutor.

Como reação, mais recentemente, surgiu uma tendência oposta, que repudia qualquer forma de correção no comportamento do animal, como se fossem capazes de causar estresse prejudicial. Essa nova abordagem passou a ser informalmente conhecida como adestramento puramente positivo. 

O ideal é que o adestramento canino seja realizado de maneira equilibrada e ética, com a aplicação de técnicas positivas e alguns ajustes e correções dos erros residuais – técnica conhecida no Brasil como adestramento equilibrado ou balanceado.

Grupos Caninos

Para um adestramento eficaz, convém que o adestrador conheça as características de cada raça de cães, para reforçar suas qualidades e conhecer, de antemão, os possíveis defeitos. Aliás, seria ideal que os tutores também escolhessem seus companheiros tendo prévio conhecimento do temperamento de cada raça, para escolher aquela que mais se adapta ao seu próprio estilo de vida.

 As raças caninas estão agrupadas da seguinte forma:

  • Grupo 1: Pastores e Boiadeiros: devem ser fortes, velozes e resistentes a longas caminhadas, usados para guiar e proteger os rebanhos contra animais selvagens. Por sua inteligência, seu vigor físico e lealdade, também passaram a ser utilizados como cães policiais. Curiosidade: embora a raça Corgi seja diminuta em comparação aos demais cães de pastoreio, era utilizada com essa finalidade porque os Corgi costumavam morder os calcanhares dos animais sob seus cuidados, como forma de mantê-los em movimento.
    • Algumas Raças do Grupo 1: Old English Sheepdog, Welsh Corgi, Pastor Branco Suíço, Border Collie
  • Grupo 2: Cães de Guarda, Trabalho e Utilidade: em geral são fortes, grandes, agressivos e leais, cumprindo função de guarda e defesa. Curiosidade: O Pinscher miniatura, apesar de seu porte minúsculo, é um exímio cão de guarda e caçador de pragas, como roedores, se assemelhando a uma miniatura dos dobermann.
    • Algumas Raças do Grupo 2: Pinscher, Schnauzer, Bernese Mountain
  • Grupo 3: Terriers: sua denominação refere-se à facilidade com que caçam animais que vivem em tocas, debaixo da terra. Costumam ser de pequeno ou médio porte, com personalidade energética, muita coragem e persistência. Pernas curtas e musculosas são comuns pela função de arrastar seus presas para fora das tocas. Curiosidade: com a redução da necessidade de caça, os Terriers se tornaram muito populares como cães de companhia, afetuosos e com lindas pelagens.
    • Algumas Raças do Grupo 3: West Highland White Terrier, Jack Russel Terrier, Yorkshire Terrier, Scottish Terrier
  • Grupo 4: Dachshunds ou Teckel: com olfato aguçado, corpo alongado e pernas curtas – como os Terriers – são exímios caçadores de animais que se escondem ou vivem em tocas. Curiosidade: apelidados, no Brasil, de “salsicha”, o nome original – Dachshunds se traduz do alemão como “caçador de texugos”. 
    • Variações do Grupo 4: Dachshund Kaninchen (pequeno), Dashshund Miniatura (médio) e Dachshund Standard (grande)
  • Grupo 5: Cães tipo primitivos, nórdicos e spitz: possuem pelagem dupla como proteção contra o frio, orelhas triangulares e rabo pontudo. Apesar de sua semelhança física com os lobos, os cães desse grupo costumam ser dóceis e sociáveis, além de inteligentes e independentes. Vivem melhor em climas frios e conseguem se mover na neve com facilidade.
    • Algumas Raças do Grupo 5: Husky, Spitz, Dingo, Basenji
  • Grupo 6: Sabujos e Rastreadores: São raças com olfato inigualável (algumas delas possuem narinas proeminentes), excepcional resistência física, persistência, destemor, sendo incansáveis em perseguições. Curiosidade: por seu olfato insuperável, são bastante utilizados como cães farejadores, tanto em ações policiais em busca por drogas e outras substâncias, quanto em buscas por pessoas desaparecidas ou soterradas. Os Sabujos conseguem perceber a passagem de alguém por um local com até 4 dias de prazo.
    • Algumas Raças do Grupo 6: Beagle, Bloodhound, Basset Hound
  • Grupo 7: Cães de Aponte: Os cães apontadores foram desenvolvidos como auxiliares de caçadores que utilizam arma de fogo. Também possuem olfato super apurado, muita energia e inteligência. Curiosidade: Durante a caçada, esse tipo de cão costuma demonstrar que localizou a presa tensionando o corpo e apontando, com o focinho, a direção do esconderijo da caça em que o caçador deverá atirar.
    • Algumas Raças do Grupo 7: Setter Inglês, Pointer Inglês, Braco Italiano
  • Grupo 8: Levantadores, Retrievers e Cães D’água: Em geral, são cães de caça especializados para caça de aves. Enquanto os cães levantadores espantam a presa, tornando-a visível  à distância, os cães de água realizam o mesmo serviço em ambientes aquáticos. Já o Retriever (=recuperador) resgata a caça já abatida, levando-a até o caçador. Curiosidade: facilmente adestráveis, as raças desse grupo são utilizadas, com frequência, em tarefas como cães-guias, cães de salvamento ou cães farejadores.
    • Algumas Raças do Grupo 8: Golden Retriever, Labrador Retriever, Cocker Spaniel
  • Grupo 9: Cães de Companhia: Sua função essencial é a de servirem como companheiros carinhosos e leais para os humanos. Curiosidade: algumas raças deste grupo se ocupavam de funções diferentes do passado. O Poodle já foi considerado um cão d’água, enquanto o Chihuahua, a despeito do porte minúsculo, já serviu como caçador e até cão de guarda.
    • Algumas Raças do Grupo 9: Maltês, Poodle, Bichon Frisé, Coton de Tuléar, Pug, Shih Tzu, Lhasa Apso, Chihuahua, Boston Terrier, Bulldog Francês
  • Grupo 10: Cães Velozes: Originalmente, cães de raças utilizadas na caça à lebre. Ao contrário dos Sabujos – que se utilizam do olfato para localizar as presas – os cães deste grupo empregam a visão para caçar. Curiosidade: anatomicamente, o Galgo conta com orelhas curtas, que não obstruem sua visão panorâmica; pernas longas, corpo magro, cintura estreita e tórax profundo – tudo que permite-lhe atingir altas velocidades.
    • Algumas Raças do Grupo 10: Galgos Inglês, Whippet

Além destes grupos, há uma série de raças de cães ainda não reconhecidas pela confederações de Cinofilia.

Especializando os cães

O adestramento canino pode se tornar um desafio maior, quando o que se pretende é treinar cães para tarefas específicas, aperfeiçoando capacidades já características da raça, como o olfato ou a visão aguçada ou o temperamento protetor. 

  • Cães de Faro: Labrador Retriever, Golden Retriever. Pastor Alemão, Sabujo
  • Cães de Patrulha: Rottweiler, Dobberman, Pastor Alemão
  • Cães de Resgate e Salvamento: Bloodhound, Labrador Retriever, Sabujo
  • Cães de Serviço: (orientam pessoas portadoras de deficiência) Labrador Retriever, Golden Retriever
  • Cães de Terapia: Qualquer raça se presta, desde que o cão tenha boa sociabilidade, temperamento dócil e meigo e o treinamento adequado a cada caso

Adestramento Canino por Reforço Positivo

O Adestramento de Cães por Reforço Positivo utiliza um sistema de recompensas para encorajar comportamentos desejáveis, ao invés de punir aqueles indesejáveis, construindo uma relação muito positiva entre o dono e seu pet, já que o treinamento se torna uma diversão entre eles. 

Na realidade, o Reforço Positivo é uma ferramenta utilizada não apenas no adestramento de cães, mas também como recurso psicológico na educação de crianças e adolescentes e até entre funcionários de empresas.

No caso dos cães, utiliza-se inicialmente algum tipo de petisco como recompensa, a cada vez que o animal reproduz um comportamento desejável. Com a repetição dos exercícios, a tendência é a de que ocorra um aumento na frequência com que o animal se comporte bem.

Como surgiu a idéia: Behaviorismo

O Behaviorismo (behavior = comportamento) surgiu no início do século XX como corrente da psicologia direcionada ao estudo do comportamento animal (incluindo os humanos). Desde o final do século anterior, os pesquisadores do comportamento animal já efetuavam experimentos empíricos usando cobaias e observando e analisando probabilidades de reações obtidas. Foi assim que, em 1898, Edward Lee Thorndike (1874-1949) formulou a “Lei do Efeito”, sendo portanto um dos precursores do Behaviorismo.

Outro cientista importante para a concepção do Behaviorismo foi Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936) – não um psicólogo, mas um fisiologista, interessado principalmente no processo digestivo, tendo sido agraciado com  um Prêmio Nobel em 1904. Seus estudos e experimentos introduziram o conceito de “estímulos condicionados”.

O Behaviorismo como escola de pensamento na Psicologia foi inaugurado por John B. Watson (1878-1958), que definiu, em seu Manifesto de 1913, que o objetivo teórico dos Behavioristas seria a previsão e controle do comportamento e formulou o conceito de “reflexo”.

 Naturalmente, o Behaviorismo evoluiu ao longo das décadas, dando origem a uma ciência do comportamento animal e humano.

Reforço Positivo versus Negativo

Num primeiro momento, tende-se a julgar que o Reforço Negativo seria prejudicial, porém ele também é um importante recurso no Adestramento, porque a “punição” que se depreende, em substituição à “recompensa” do Reforço Positivo, não é, como se pode deduzir, sempre um castigo físico ou doloroso.

Na realidade, um bom adestrador pode usar sua criatividade em simplesmente adotar “punições” não dolorosas, como, por exemplo, ignorar o animal, tratando-o com frieza e indiferença quando o comportamento dele houver sido desagradável. Portanto, o Reforço Negativo pode se limitar à eliminação do estímulo prazeroso previamente obtido por bom comportamento. Privar o pet de petiscos, atenção ou afagos, a um mau comportamento pode ser bastante decepcionante para as expectativas do animal. Mas não o machuca fisicamente, nem o priva de necessidades básicas.

Busque o Equilíbrio

O adestramento de cães exige a busca do equilíbrio no uso dos reforços positivos e negativos e de certa perspicácia para perceber os momentos certos para aplicar recompensas positivas ou negativas.

Se, por exemplo, durante o treino, um cachorro dá sinais de que precisa fazer xixi, você deve tentar atraí-lo para o tapete higiênico, premiando-o com um petisco, caso seja bem sucedido.

Por outro lado, se você está caminhando com o cão e ele acelera o passo, puxando a coleira, pare imediatamente de andar. Assim, o estímulo prazeroso do passeio é retirado do pet, cuja tendência será a de reduzir o mau comportamento.

O que é necessário para um Adestramento Canino eficaz?

Antes de mais nada, o adestrador precisa ser alguém muito dedicado e paciente, porque terá que repetir o treino vezes sem conta. Alguns animais aprendem rápido, mas outros necessitam de mais dedicação. Lembre-se de que “perder a paciência” com o bichinho será o equivalente a uma punição bastante negativa. E o ideal é que o treino seja prazeroso para ambos participantes.

É preciso também ficar atento às oportunidades – sobretudo inesperadas – de aplicar  as lições. Também lembre-se de ser ágil no momento correto de recompensar seu aluno, porque qualquer demora em oferecer o petisco pode confundir o pet, fazendo-o associar a recompensa a outro comportamento que não o desejado.

Leve em conta, sobretudo, que os pets são exímios observadores de nosso comportamento também. Se o adestrador levanta a voz ou demonstra irritação ou impaciência, o cão pode interpretar o comportamento como “insegurança” e perder a confiança que precisa depositar no Adestrador – para que essa parceria seja bem sucedida.

Mantenha sua mente aberta a novos conceitos que surgirem, testando-os ou explorando-os.

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